Palavras de João Faria Borda (já falecido), um homem que passou dezasseis anos e três meses no Campo de Concentração do Tarrafal, que foi uma das mais sinistras criações do regime a que a Revolução de 25 de Abril pôs termo.
«A “frigideira” era um paralelepípedo dividido ao meio, com proporções para conter dois homens. Mas, em caso de grandes castigos, chegavam a meter lá dez.
Como respiradouros existia apenas uma fresta em cima e cinco buraquinhos do tamanho da ponta de um dedo na porta de ferros.
Aquecendo extraordinariamente durante as horas do calor, a “frigideira» arrefecia bruscamente com a cacimba, à noite. Descalços e apenas com o fato de caqui, os presos suavam abundantemente durante o dia e tremiam de frio durante a noite.
A alimentação, nessas alturas de castigo, piorava: em dias alternados os presos comiam pão e água ou um caldo quente onde só raramente bailavam alguns grãos de arroz.
Quando os presos saíam, enfraquecidos, da “frigideira” eram atirados para o trabalho mais violento. Entre esses ficou célebre o trabalho a que o fascista Seixas apelidou de ”brigada brava”, pois excedia em muito a própria violência do trabalho normal. Não era permitido beber água ou urinar senão com autorização dos guardas. A “brigada brava” começou com dezenas de presos mas terminou apenas com dois: eu e António Guerra da greve da Marinha Grande, em 18 de Janeiro de 34.
Para mim este trabalho era um choque não só físico como mental, de tal modo que não conseguia dormir durante a noite, obcecado com a ideia de que no outro dia tinha de voltar ao mesmo.
Quando, negros e encharcados, regressávamos ao campo, os restantes camaradas, solidários, ajudávam-nos em tudo o que o regulamento permitia: lavavam-nos a roupa, guardavam para nós a melhor comida e animavam-nos moralmente.»
É importante que se citem exemplos do que foi uma das prisões políticas mais mortífera para que as novas gerações vão delas tendo conhecimento para melhor poderem ajuizar o que foi a ditadura Salazarista e a sua polícia política.
Afixado por: congeminações em abril 23, 2004 07:36 PM